UMA PERGUNTA INCONVENIENTE: BIOCOMBUSTÍVEIS OU AGROCOMBUSTÍVEIS?
Os biocombustíveis têm sido alardeados como a solução aos problemas da crise energética e como um remédio ao aquecimento do clima global.
Diferente dos combustíveis fósseis, cujo carbono retorna à atmosfera em épocas bem distante de sua captura da atmosfera, a ideia inicial de se utilizar biocombustíveis é que o carbono emitido no ato de seu consumo já deve ter sido extraído da atmosfera durante o processo de desenvolvimento da cultura que o gerou (cana-de-açúcar, milho, mamona, etc.).
Contudo, nem tudo é tão simples como parece. Vejamos algumas perguntas bem inconvenientes:
1) A produção dos biocombustíveis é realmente sustentável? Quem mais tem lucrado com sua produção, o meio ambiente (a biodiversidade, o solo, os recursos hídricos) ou o agronegócio? Neste sentido perguntamos: os biocombustíveis não são na verdade agrocombustíveis?
2) Qual o gasto de energia para se gerar esse combustível e o valor equivalente em alimentos que poderiam ser produzidos na mesma área cultivada?
3) Quem são os proprietários de grandes extensões de terras onde supostamente devem ser cultivados os biocombustíveis? Por acaso são os latifundiários, muitos dos quais bancos e petroleiras?
4) Onde devem ser produzidos esses biocombustíveis, nos países desenvolvidos, justamente os mais carentes em combustíveis ou nos subdesenvolvidos que deixam de cultivar alimentos para produzi-los?
5) Os agrocombustíveis trazem desenvolvimento ao meio rural? Em 100 hectares há mais empregos na agricultura familiar ou na produção de cana-de-açúcar? Quem lucra com a produção de insumos, processamento e distribuição para os biocombustíveis, os agricultores ou as grandes corporações? A produção de biocombustíveis não estaria contribuindo para a concentração de terras?
6) A introdução das monoculturas dos biocombustíveis não estariam deslocando indígenas e agricultores de subsistência para a “fronteira agrícola” da região amazônica, intensificando os padrões de devastação das florestas?
7) No ciclo do biocombustível - desde o momento do processo de “terra devastada” até o consumo pelos motores dos veículos – não existe realmente emissão de CO2 (desflorestamento, drenagem de terras úmidas, cultivo, perda de carbono dos solos)?
8) Os biocombustíveis não geram escassez de alimentos? O cultivo de biocombustíveis não estaria criando uma competição acirrada com as culturas agrícolas, gerando competição por terras e recursos e criando uma condição alarmante onde os preços dos alimentos podem elevar os preços dos combustíveis?
9) O etanol celulósico, promessa de uma nova geração de biocombustíveis, é realmente um poupador de carbono ou esta é apenas uma promessa das multinacionais da engenharia genética?
São tantas as perguntas, pense, pesquise e depois decida se realmente os biocombustíveis são uma energia “limpa” e verde.
Fonte de pesquisa: TOMMASELLI, J.T.G. – Gestão do Território: Energia e Meio Ambiente. São Paulo, 2012



